Transbordando de raiva

Transbordando de raiva

Por:  Psicóloga e Jornalista Mauricéia Quinhoneiro – CRP 06/48759-9 

Saiba como reconhecer e tratar “botões vermelhos”, ou seja, pensamentos, crenças e esquemas disfuncionais que mobilizam ações raivosas.

Podemos entender nossos botões vermelhos como conteúdos ou crenças pessoais desadaptativas. São como feridas psicológicas as quais, quando ativadas, conduzem a interpretações distorcidas e mobilizam  fortes emoções.

Acredito que em maior ou menor grau todos temos nossos botões vermelhos. Tal qual as feridas. Estas  podem estar muito bem tratadas e, de alguma forma, até cicatrizadas ou então abertas provocando grandes sofrimentos.

Botões vermelhos ativados é uma forma menos técnica, que eu uso em terapia, para relatar que uma crença básica ou um esquema inicial desadaptativo pode ter sido ativado.

Aaron Beck usa o termo crenças básicas para explicar os padrões rígidos e arraigados de entendimentos sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre o futuro. Jeffrey Young trabalha com o conceito de esquema, mais precisamente os esquemas iniciais desadaptativos.

De forma geral tanto as crenças quanto os esquemas podem ser entendidos como a raiz que nutre os galhos, folhas e frutos, ou seja, nossos pensamentos, emoções e comportamentos.

A forma como cada um interpreta os eventos do dia-a-dia não é aleatória e sim condicionada por esta estrutura mais profunda conhecida como esquema e crenças básicas.

Esquemas e crenças parecem ser o resultado do temperamento inato da criança interagindo com experiências de interação familiar e social durante os primeiros anos de vida.

Esquemas disfuncionais normalmente são causados por padrões continuados de experiências nocivas  com as pessoas mais importantes do universo da criança.

Os botões vermelhos aparecem como um botão de alerta capaz de mobilizar grande intensidade emocional. Por exemplo, uma pessoa com um esquema inicial desadaptativo de rejeição pode vivenciar intenso sofrimento emocional ao receber qualquer crítica e pode reagir de forma desproporcional. Neste caso o maior problema não foi a crítica em si, mas o “botão vermelho” que esta crítica acionou.

Esquemas iniciais desadaptativos são de difícil reconhecimento e compreensão. Acho difícil que a pessoa consiga reconhecer e trabalhar sozinha com seus esquemas. Em muitos casos a terapia é fundamental.

De forma geral, circunstâncias que envolvam desequilíbrio em termos de vivência e expressão emocional podem ser indicativos de esquemas ativados.

Desequilíbrio envolve transbordar  ou então reprimir emoções através de atitudes evitativas. Medo, raiva ou tristeza vivenciados de forma intensa ou ainda a própria  apatia podem servir de termômetro para reconhecer possíveis esquemas ativados.

Contrariedades e desconfortos emocionais fazem parte da vida, porém a persistência por reações desadaptativas – agressividade, confronto, vitimização, submissão, isolamento, etc – podem indicar a ação desses botões vermelhos ou esquemas desadaptativos.

Observar tipos, conteúdo e frequência das distorções de interpretação da realidade pode ser um bom fator de proteção.

Durante o processo terapêutico, mapeamos todos os possíveis botões vermelhos.

A pessoa aprende a identificar suas vulnerabilidades. Embora muitos pacientes entendam racionalmente que os esquemas são distorcidos e/ou disfuncionais  a compreensão emocional tende a ser mais demorada e difícil.

Então, utilizamos vários recursos de apoio para ajudar o paciente a se auto-avaliar.

Consciente dos erros cognitivos típicos (ver lista), o paciente poderá reconhecer e evitar armadilhas através  da metacognição, ou seja, conversando consigo mesmo ou então com os próprios botões. Por exemplo: uma pessoa com um esquema de fracasso ao ter o pensamento: Eu faço tudo errado, poderá  lançar um novo pensamento sobre o anterior: Isso é um erro cognitivo do tipo: tudo ou nada, é impossível que eu realmente faça tudo errado. Ou ainda: Olha só o meu esquema de fracasso distorcendo novamente minha percepção das coisas. Desta vez não vou cair na armadilha.

 

ERROS COGNITIVOS COMUNS

01- Tudo ou nada- você vê uma situação em apenas duas categorias em vez de contínuo.

02- Catastrofização – você prevê o futuro negativamente sem considerar outros resultados prováveis.

03- Supergeneralização- você tira uma conclusão negativa radical que vai muito alem da situação.

04- Argumentação emocional-  você pensa que algo deve ser verdade porque você “sente”, mesmo desconsiderando evidencias contarias.

05- Leitura mental- você acha que sabe o que estão pensando de você.

06- Personalização- você acredita que os outros estão se comportando negativamente devido a você.

07- “eu devo, você deve” – você tem uma ideia exata estabelecida de como se deve agir e superestima quão ruim é que essas expectativas não sejam preenchidas.

08- Visão em túnel- você vê apenas os aspectos negativos da situação.

09- Filtro mental- você presta atenção indevida a um detalhe negativo ao em vez de considerar o quadro geral.

10- Desconsiderando o positivo- você crê que as experiências, atos ou qualidades positivos não contam.

11- Rotulando- você não observa que as evidencias possam se razoavelmente conduzidas a uma conclusão menos desastrosa.

12- Magnificação/minimização- você magnífica o negativo e/ou minimiza o positivo.

 

Alguns personagens fictícios, conhecidos pelo grande público, podem ilustrar situações nas quais as crenças desadaptativas são ativadas

Dr. Banner, interpretado por Mark Ruffalo no filme “Vingadores”, embora seja um personagem fictício e fantasioso, pode estar entre os mais marcantes exemplos do que entendemos como botão vermelho ativado. Banner é um cientista introspectivo com postura e movimentos contidos e semblante gentil, porém, quando ativado se transforma no Hulk, um imenso monstro verde. Há também a possibilidade do nosso herói fazer o tipo reprimido, considerando suas experiências anteriores com figuras autoritárias, porém, em situações limites, sua raiva atinge proporções gigantescas.  

Nossos heróis da ficção e dos quadrinhos, assim como Hulk, modelam a possibilidade de fins construtivos a partir de meios violentos o que, de fato, é pouco adaptativo na vida real.

A definição de heróis, mocinhos e vilões, no mundo real, pode ser apenas uma questão de perspectiva. Daí, muitas das justificativas para agressões e hostilidades, não se sustentam.

De qualquer forma, nossa sociedade continua carente de heróis de verdade. Pessoas que transformam a raiva e a indignação em energia criativa em favor do bem-comum.

Assim como Hulk, de forma geral, as pessoas reconhecidas como pavio curto são aquelas que apresentam um temperamento raivoso e com tendência a expressar a raiva de forma desadaptativa.

A predisposição para sentir raiva de forma persistente incluiu uma possível vulnerabilidade genética, provavelmente representada por uma hipersensibilidade do sistema límbico que conduz à produção excessiva de catecolaminas, testosterona e cortisol somadas aos esquemas iniciais desadaptativos os quais conduzem para um modo inadequado de interpretar os eventos da vida.

Vale ressaltar, que o fenômeno da raiva é bastante complexo e reúne várias formas de manifestação.

A raiva em si não é uma emoção boa ou má. Ela faz parte do nosso instinto de sobrevivência e neste caso é adaptativa. Ela pode também ser entendida como mecanismo de proteção  contra perda ou violação de um direito ou poder real ou imaginário.

Existe a raiva traço e  a raiva estado. Nos dois casos a raiva  pode ser projetada para fora com atos de hostilidade ou  agressão com outras pessoas, ou para dentro como forma de repressão que pode levar à depressão.

Há pessoas que possuem uma tendência a experimentar episódios de raiva com frequência exagerada (raiva traço) e outras que só experimentam em situações específicas ou de extrema injustiça (raiva estado).

Raiva em excesso, dirigida tanto para dentro como para fora tende a ser destrutiva para a pessoa e para o ambiente em eu ela vive. Neste caso a terapia pode ser a primeira indicação.

A Terapia Cognitiva Comportamental – TCC, abordagem em que atuo, oferece a possibilidade de compreensão das origens e mecanismos da raiva assim como a inter relação desta emoção com possíveis esquemas iniciais desadaptativos. A meta é promover a reestruturação cognitiva, ou seja, a criação de um modo mais realista e funcional de pensar e avaliar as circunstâncias.

O processo terapêutico também objetiva a criação ou implementação  de um repertório de habilidades de resolução de problema. Através de treinos de assertividade e habilidade social, manejo do estresse, relaxamento e, especialmente, a prática de Mindfulness, o paciente aprende a reconhecer, elaborar e a responder com maior autonomia aos impulsos destrutivos.

 

Comece contando até 10

Para controlar os excessos no momento que a raiva começa a querer transbordar vale a boa e velha  dica de contar até 10. Associe a contagem ao movimento da respiração. Respire profundamente e lentamente. Conte até 10 inspirando e até 5 expirando pela boca. Repita 5 vezes.

Se a respiração não for suficiente pra desativar o alarme emocional uma boa alternativa é deixar o ambiente: dar uma volta, ir ao banheiro lavar o rosto e as mãos  são boas opções. Quando não for possível outra forma é recorrer à imaginação criando um cenário alternativo e relaxante.

A ação mais eficaz e com resultados mais duradouros é ser capaz de assumir a responsabilidade pelas atitudes.

Diante de uma situação difícil converse com seus botões e questione se vale a pena reagir de forma explosiva. Identifique as vantagens e as desvantagens dessa possível reação. No mais, exercite a empatia e a compaixão e/ou  tente validar a regra de ouro de não fazer para o outro àquilo que você não gostaria que fizessem para você. Se não funcionar? Volte até o ponto de partida e conte até 10 novamente.

Veja o artigo anterior que escrevi pro Psicursos clicando AQUI!

Até o próximo artigo!

Mauricéia Quinhoneiro