Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT) está entre os tratamentos mais eficazes na prevenção da depressão recorrente

Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT) está entre os tratamentos mais eficazes na prevenção da depressão recorrente

Por:  Psicóloga e Jornalista Mauricéia Quinhoneiro – CRP 06/48759-9

A depressão é a desordem mental que mais afeta pessoas em todo o mundo. Segundo pesquisas, num futuro próximo de dois anos, até 20% da população irá vivenciar algum episódio depressivo ao longo da vida. O risco de suicídio e do aparecimento de outras desordens associadas à depressão, como os transtornos de ansiedade, indicam a seriedade e abrangência do problema. No entanto, poucas pessoas procuram e recebem tratamento adequado. A Organização Mundial de Saúde (OMS) projeta que, até 2020, a depressão será o segundo maior problema de saúde em todo o mundo. Por isso, encontrar a melhor abordagem de tratamento tornou-se o maior desafio no campo da saúde mental.
Inicialmente utilizados na década de 1950, e refinados a partir da década de 80, os fármacos antidepressivos passaram a ser a primeira indicação no tratamento da depressão maior, ainda que sem efeito comprovado nas manifestações leves ou moderadas da doença, e tendo eficácia reduzida após 1 ou 2 anos de tratamento. No mesmo período, abordagens psicológicas, como as terapias cognitivas e interpessoais, também foram testadas e validadas como eficazes no tratamento da depressão. Ainda assim, a recorrência dos episódios depressivos, após tratamento e remissão, passou a representar um importante fator nas taxas de prevalência, um novo desafio a ser solucionado.
Pesquisas recentes revelam que cerca de 50% dos pacientes que se recuperam de um episódio inicial de depressão terão pelo menos um episódio depressivo subsequente. Já para os pacientes que tiveram dois ou mais episódios, a probabilidade de recorrência varia entre 70 e 80%.
Estender o tratamento farmacológico após a remissão da fase aguda da depressão foi a alternativa, orientada por pesquisa, para prevenir a recaída de uma fase aguda que ainda não completou seu curso (6 meses) e a continuidade do tratamento ( 5 anos) para prevenção de episódios recorrentes. No entanto, o prejuízo na adesão ao tratamento farmacológio, decorrente dos possíveis efeitos colaterais, planos de vida, além do fato dos medicamentos intervirem apenas nos sintomas da depressão e não na causa, evidenciou esta abordagem como insatisfatória para muitos pacientes. Outros estudos revelaram que a psicoterapia, assim como a medicação antidepressiva, poderia diminuir a chance de reincidência dos episódios depressivos. Entretanto, as abordagens terapêuticas haviam sido desenvolvidas, testadas e validadas para a fase aguda da doença. A necessidade de desenvolver um plano menos limitado, capaz de intervir de forma continuada e com ação preventiva legitimou o estudos que levaram a formulação e consolidação do Programa MBCT – Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness.
Neste contexto de busca, estudos e pesquisas, Mindfulness (técnica de meditação com base na atenção plena, com foco no momento presente a partir da abertura, aceitação, curiosidade e sem julgamentos), mostrou-se como uma promissora proposta integrativa e complementar à Terapia Cognitiva no tratamento da depressão crônica e prevenção de recaída.
O reconhecimento da eficácia do Programa de Mindfulness e Redução do Estresse (MBSR), elaborado por John KabatZinn, no final da década de 1970, assim como os aspectos reconhecidos incialmente como similares às duas abordagens (TC e MBSR), mobilizou o interesse dos pesquisadores John Teasdale, Mark Williams e ZindelSegalna. A possibilidade de integração e adaptação deste Programa à Terapia Cognitiva com vistas ao tratamento da depressão chamou a atenção dos estudiosos. A partir daí, foi estruturado um Programa de 8 sessões de Mindfulness baseado em Terapia Cognitiva para Depressão (MBCT).
Desenvolver habilidade de escolha entre os modos mentais – “ser” e “fazer” – fundamenta todo o programa. Para resolver um problema, o modo “fazer” entra em ação, mantendo na mente as ideias de onde estamos, de onde queremos estar e de onde não queremos estar. Por meio do modo “fazer”, a mente humana é capaz de realizar metas das mais simples até as mais extraordinárias. No entanto, quando as metas a serem alcançadas dizem respeito ao mundo interior e pessoal, tais como os estados de felicidade, tranquilidade, espontaneidade e contentamento, o modo “fazer”, além de não ajudar, tende a piorar o estado de humor inicial. Nestes casos, o “fazer” precisa manter na mente a disparidade entre o tipo de pessoa que se é e o tipo de pessoa que se quer ser. Esta estratégia, quando utilizada em questões subjetivas e emocionais, apenas reforça a distância entre esses pontos, gerando mais desconforto e insatisfação e preocupação ruminativa.
O modo “ser” mostrou-se como alternativa ao modo anterior diante de questões internas, subjetivas e emocionais ou para aquelas que escapam ao controle das ações objetivas. A riqueza total do modo “ser” não é facilmente transmitida em palavras, sendo a melhor compreensão a que se dá através da experiência. O foco do modo “ser” é aceitar e permitir o que é. Neste modo, a mente não tem nada a fazer e nenhum lugar para ir e pode se concentrar na experiência momento a momento. Pensamentos, sentimentos e sensações são vistos como ocorrências que surgem, se tornam objetos da consciência e, em seguida, passam. Esta atitude descentrada permite uma maior capacidade de tolerar estados emocionais desconfortáveis, pois, sendo vistos como apenas eventos da mente, não se faz necessário deliberar sobre eles.
A eficácia do MBCT tem relação direta com as habilidades Mindfulness desenvolvidas pelo Instrutor. Além da formação teórica e do aprendizado da forma adequada de condução das sessões, prevista em protocolo, é imprescindível que instrutor esteja habituado a práticas formais regulares de Mindfulness sob prejuízo da credibilidade e modulação coerente e honesta com os propósitos do programa.
Aprender os fundamentos da atenção plena é o foco das primeiras 4 sessões. A manipulação de mudanças de humor envolve a segunda fase do programa, por sua vez sendo trabalhada nas 4 últimas sessões.O trabalho experiencial envolve práticas de atenção plena pertinentes ao propósito de cada sessão. São elas: comer consciente, escaneamento corporal, meditação na posição sentada de duração e tipos variados, alongamento consciente, movimento consciente, caminhar consciente e espaço de respiração de 3 minutos (prática mais importante do programa).
Durante todas as sessões, os participantes são convidados a compartilhas suas experiências e, ao final, são instruídos a exercitar diariamente a consciência plena através de algumas práticas pré-estabelecidas e trabalhadas durante a sessão.
As características fundamentais do modo “ser” da mente praticadas ao longo das 8 semanas são: viver com atenção e escolha consciente (em comparação com viver no “piloto automático”); conhecer a experiência diretamente por meio dos sentidos (em comparação com conhecê-la por meio do pensamento); ser livre, aqui, agora, neste momento (em comparação em viver no passado ou no futuro); abordar todas as experiências com interesse ( em comparação com evitar as desagradáveis); deixar que as coisas sejam como elas são ( em comparação com precisar que elas sejam diferentes); encarar os pensamentos como eventos mentais (em comparação com necessariamente reais); cuidar de si mesmo com delicadeza e compaixão ( em comparação com se concentrar em alcançar metas que não valem a pena).
Pesquisas revelaram que em pacientes com três ou mais episódios anteriores de depressão, a MBCT reduziu a taxa de recorrência ao longo de 12 meses em 40% a 50%, em comparação com os tratamentos usuais, e se revelou tão eficaz quanto os antidepressivos de manutenção da prevenção de novos episódios de depressão. A técnica de MBCT também foi eficaz para pessoas que sofrem de vários problemas emocionais, como ansiedade, fobia social, pânico, agorafobia, transtorno bipolar, depressão crônica e desafios psicológicos associados a doenças físicas, como o Câncer.
Todos os resultados acontecem a partir do aumento da atenção plena. As evidências sugerem que são de extrema importância as mudanças na autocompaixão – a maneira como os participantes aprendem a adotar uma atitude mais delicada e amistosa com relação a si mesmos. Ou seja, trata-se de ser mais bondosos e compassivos e menos duros, críticos e intolerantes.
A atenção plena fortalece a redes do cérebro que regulam a reatividade emocional, reduzindo o tamanho e o impacto da amígdala – o sistema de lutar, fugir ou ficar imobilizado; ela fortalece as redes que estão por trás da nossa capacidade de sentir compaixão por nós mesmos e pelos outros, além de modificar os trajetos que normalmente produzem a ruminação habitual e inútil sempre que uma disposição de animo triste se manifesta.
A técnica MBCTrepresenta um avanço altamente significativo na terapia baseada em evidências para a depressão recorrente. No entanto, a sensibilização, conscientização e adesão às práticas regulares de Mindfulness orienta o principal desafio do programa. Trata-se de uma prática ainda muito distante da nossa formação cultural cujo sofrimento emocional pode ainda não ser suficiente para um adequado engajamento.
A comprovação dos resultados dos programas baseados em Mindfulness é mais do que suficientes para fomentar novas diretrizes para o tratamento e prevenção de inúmeras doenças. Hoje, é ponto de acordo entre a comunidade científica e população a relevância das atividades físicas para a saúde em geral. Mindfulness tende a seguir o mesmo caminho cujo ritmo vai depender da adesão e do comprometimento de cientistas e profissionais das áreas da saúde e da educação.
Numa cultura onde prevalece a orientação por resultados e que privilegia os modos “ter” e “fazer”, os achados científicos também relacionados à bondade e autocompaixão, além de surpreendentes, podem revolucionar inúmeros embasamentos teóricos que fundamentam diversas abordagens de tratamento. Antes vistos entre as referências éticas e religiosas, bondade e compaixão passam a liderar entre os mais importantes diferenciais à felicidade, saúde e qualidade de vida.

 

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Bibliografia:
TEASDALE, John; WILLIAMSA, Mark; ZINDELSEGAL. Mindfulness-Based Cognitive Therapy for Depression. Guilford Press, 2012.
Contato:
Mauricéia Quinhoneiro – Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental com Formação em Mindfulness