Tenha medo, mas não seja medroso.

Tenha medo, mas não seja medroso.

Por Psicólogo Leandro Bianchini Garcia CRP: 06/142477

Somos o resultado de tudo aquilo que vivemos (e não vivemos), e
afetamos e somos afetados (em todos os instantes) através das relações.
Nosso autoconceito é também construído a partir de como o outro nos percebe (e a percepção é também subjetiva). De qualquer maneira, é muito comum em nosso cotidiano, definirmos pessoas (e sermos definidos) a partir daquilo que julgamos ser coerente com as nossas expectativas, influências (conscientes ou não), nossos conceitos e preceitos.
Logo, se nos relacionamos com uma pessoa que comumente se
encontra prostrada, apática e calada, dizemos: “Ela é uma pessoa triste”, se por acaso nos deparamos com uma pessoa que expressa em quase todo instante um sorriso no rosto, fala alto, dá gargalhadas, dizemos: “Ela é uma pessoa alegre”, por fim, se estamos em contato com uma pessoa que constantemente não se lança em desafios, se mantém em um casamento por acreditar que não vai conseguir seguir em frente estando sozinha, podemos dizer: “Ela é uma pessoa medrosa”. Logo, temos o seguinte conceito a respeito das pessoas:
·“Ela é uma pessoa triste!”
· “Ele é uma pessoa alegre”
· “Ele é uma pessoa medrosa.”.
Vocês sabem explicar a razão das frases acima estarem totalmente
erradas? Em caso afirmativo, meus parabéns!
Ajudem as pessoas que estão no teu entorno a terem uma vida mais plena e com menos sofrimento, pelo menos no que concerne ao que conhecem das próprias emoções e sua autoimagem / autoconceito.
Se por acaso vocês desconfiam da razão das frases estarem totalmente
erradas (mas não sabem claramente), não tem problema! Todos nós estamos de passagem neste multiverso para aprender.
A partir deste mês compartilharei um pouco do que sei (e quem sabe)
posso participar de alguma maneira do vosso processo de (des) construção constante do conhecimento.
Então vamos lá:
O que há de tão errado nas frases acima?
Bom, não responderei (agora).
Vocês mesmos (ao terminarem o texto) terão a resposta a partir de outra pergunta que farei:
Mas afinal, o que são as emoções?
Dentre inúmeras definições, a que mais gosto no momento é a que
encontramos no livro Cem Bilhões de Neurônios? de Roberto Lent:
“A emoção, como propõe a nossa definição operacional, é uma
experiência subjetiva acompanhada de manifestações fisiológicas e
comportamentais detectáveis”.
Gosto desta definição, pois ela sacia a minha necessidade de ter um
conceito que chama a atenção em observar um fenômeno de maneira
concreta, a partir das manifestações detectáveis do e no organismo, e ao mesmo tempo, me deixa curioso e com indagações a respeito daquilo que não é passível de observação direta, ou seja: nesta definição, é reconhecido um componente subjetivo, uma experiência individual que (neste sentido) não é passível de medida e observação (num primeiro momento).
O fato de podermos “detectar” a emoção a partir de comportamentos nos faz pensar uma série de técnicas e procedimentos aplicáveis, quando trabalhamos no desenvolvimento de habilidades que envolvem as emoções (mas este pode ser assunto para outro momento).
Voltando à definição dada, imaginem a seguinte situação:
Você está na caverna conversando com seus amigos sobre o futuro,
divagando sobre se um dia a humanidade vai sobreviver a toda hostilidade da vida compartilhada com animais ferozes e selvagens. Depois de certo tempo de conversa, você se recorda que precisa caçar um animal para se alimentar, e como faz todos os dias, pega a sua lança, sai da caverna e vai à caça. Porém, neste dia, acontece algo novo: assim que sai da caverna, se depara com um predador que tem a certeza que ao te devorar, vai ter a sua fome saciada.
Neste momento seu organismo vai ser mobilizado através do sistema nervoso autônomo em interação com o sistema nervoso central, para se adaptar (componente fisiológico) à situação de ameaça, e então você decide lutar (componente subjetivo) para manter-se vivo (afinal, você também poderia ter escolhido fugir). Você modula a tua expressão facial, a partir da sua testa sobrancelha, olhos e boca para um tom ameaçador, assim como levanta a lança em uma altura que possa colocar em risco a vida do predado (comportamentos detectáveis).
Mas, e se ao sair da caverna, você por qualquer motivo, tivesse saído
sem a lança? Ao se deparar com a fera, seu organismo procuraria se adaptar à situação como vimos anteriormente, contudo, provavelmente você fugiria. De qualquer maneira, tente agora imaginar como seria a tua expressão facial ao se deparar com a fera sem estar munido de sua poderosa lança? Algo mudou?
Pergunto:
Nos exemplos anteriores, quais emoções foram ativadas no organismo?
Conforme é possível confirmar nos trabalhos do Psicólogo americano
Paul Ekman, temos as seguintes emoções básicas (universais): nojo, medo /ansiedade, alegria, tristeza, surpresa (questionada pelo próprio) e raiva.
Se a resposta foi medo, está correto! Provavelmente a surpresa
antecedeu o medo (e talvez a raiva) contribuiu para o comportamento
agressivo, mas vamos nos ater ao medo:
O medo neste caso, uma emoção básica, atuou como disparador do
comportamento agressivo em defesa da própria existência. Ou seja, o medo pode ser descrito como “ameaça ou perigo percebido a nossa segurança e estabilidade, tem função de sobrevivência e é caracterizado a partir das repostas de luta ou fuga”, conforme Clark & Beck no livro Terapia Cognitiva dos Transtornos de Ansiedade.
Bom, neste momento, é bem provável que vocês agora possam estar
desconfiados do por que as frases elencadas no início deste texto estavam erradas. Vou ajudar:
Como vimos, as emoções possuem três componentes principais que são os fisiológicos, comportamentais e subjetivos e certamente vocês se identificaram com a história do homem que sai das cavernas em busca de alimento. E por que isso acontece?
Acontece porque as emoções são um estado passageiro e
universalmente compartilhado e acontecem em resposta a eventos internos (organismo) e externos (ambiente).
Ou conforme dizem os autores Leahy, Tirch & Napolitano em seu livro Regulação Emocional em Psicoterapia: “o medo, emoção universal, é uma resposta adaptativa a um perigo natural como a altura. Ele pode paralisar o animal, motivá-lo a fugir ou evitar e oferecer os meios de expressão facial e vocal para alertar os outros acerca do perigo eminente”.
Durante a graduação (salve professora Olga Watanabe) também aprendi que “as emoções são um estado afetivo intenso e complexo, tanto na linha do prazer quanto do desprazer diante de excitações internas e externas”.
Agora já sei que vocês entenderam:
As frases no início do texto não estão corretas, pois as mesmas revelam
uma condição de permanência que se funde com a identidade da pessoa:
· “Você é uma pessoa medrosa”.
Emoções não revelam quem você é. Você não é a sua emoção.
As emoções têm utilidade adaptativa, são universais, se apresentam e
se dissipam em um tempo de duração determinado.
Sendo assim, é importante aceitar as emoções como parte da
experiência humana e de uma vida completa. Não devemos usar as emoções, para nos rotularmos uns aos outros.
No início do texto, fiz um pedido para as pessoas que acertaram a
resposta.
Para vocês que leram até aqui, peço o mesmo e ainda reforço:
1. Tenham autocompaixão: reconheçam que são humanos e que possuem o
direito de viver uma vida completa, experimentando todas as emoções.
2. Sejam compassivos e ajudem as pessoas a se livrarem de rótulos. Os
rótulos podem ferir e impactam negativamente na autoestima.
Até mês que vem!