Ser – Viver e Transcender

Ser – Viver e Transcender

Por: Psicólogo Antônio Carlos Rezende, CRP nº 09/007709

O tema acima se encontra em diversas áreas como na filosofia, psicologia, sociologia, teologia e etc, ao escolher ele foi devido estar muito presente em meu trabalho social e no encontro diário com as pessoas desde criança, jovens, adultos, idoso e profissionais de diversas áreas.

Neste sentido é perceptivo que cada pessoa dê um significado para vida baseado em conceitos, que os próprios criaram, através de símbolos, comportamentos, pensamentos, sentimentos, ações, que os permitem ler a realidade e criar mundos tanto de conservação quanto de transformação.

Os conceitos são uma aventura do pensamento, que constitui um acontecimento, vários acontecimentos, que permitem um ponto de vista sobre o mundo, sobre o vivido como sendo um aprendizado e reaprendizado do vivido (mente – raciocino – consciência – consciência refletida), para uma possível ressignificação do mundo e da experiência vivida. Ver o mundo, ir e devir.
O filósofo Parmênides (520 a.C), descreve o que não-é, nunca será, porque o não-ser não existe!

Logo Ser = Pensamento. Tudo o que se pensa é… não se pensa o que não é. Nunca se pensa o que não existe.

Ser é transcendente, transcende a realidade física.

Não ser não existe.

 

Afirmativo Vazio de ser.

Tudo o que o homem pensa é!

Tudo o que o homem não pensa não é!

Ser é eterno – finito – limitado – perfeito.

Capacidade é infinita – ilimitada.

Ser – esfero – pensamento – finito – perfeito – sem começo e fim.

Temporalidade (ser – tempo – existir). O homem é tarefa de si mesmo em constante desenvolvimento e evolução – pensamento, sentimento e espírito respondendo aos desafios de seu tempo – espaço – conquista. Para evoluir tem que tomar consciência das circunstâncias (situação ou condição em que a pessoa se encontra em determinado momento). No grande mundo acontece o nosso processo de crescimento – desenvolvimento – evolução (corpo – matéria, mente – realidade, espírito – co-criador; emancipação e autonomia).

Ser esfero

Circunferência é limitada sem começo e fim.

Bíblia: Moisés pergunta a Deus. Quem é o Senhor?
Deus “Eu sou que sou, aquele que é”.

Razão – verdade – um – uno – ser.

Onipotente: força / poder.
Onipresente: lugar / matéria.
Onisciente: saber / inteligente.

“Você é a imagem refletida no espelho”, que observa, pensa, sente, para conhecer-se filósofo Sócrates adverte: “Conhece a ti mesmo”. É um ponto de consciência e reflexão sobre você.
De acordo com Nathanael Branden, “a vida sem reflexão não merece ser vivida”. Os pensadores de todos os tempos e lugares aprenderam ou intuíram que o eu é o vasto continente, cheio de mistérios e possibilidades de aventuras, e é sabido que sua exploração tem valor igual ao da exploração do mundo exterior. “Quem sou eu?” continua sendo a pergunta mais importante da existência humana. É uma questão que nos desafia continuamente e se repete de várias maneiras conforme evoluímos.

O autor continua, somos a única espécie capaz de fazer tal pergunta a única espécie capaz de avaliar nossa experiência e seus possíveis significados. Para onde vamos? Quais são as inferências que fazem com que eu sinta o que sinto, ou faça o que faço? Somos seres capazes de pensar, e o mais extraordinário é que pensamos sobre nós mesmos. Questionamos nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Assim, conforme nossa vida avança, podemos responder à pergunta “Quem sou eu” em níveis cada vez mais profundos.

Pelo menos esse é nosso potencial. No entanto, é uma opção que temos. Não somos obrigados a pensar sobre nós mesmos ou sobre qualquer outra coisa. Podemos passar pela existência como sonâmbulos, o que tragicamente, é a escolha de vida da maioria da humanidade. O resultado é uma condição crônica de autoisolamento e autoalienação.

Nós nos tornamos solitários de nós mesmos. Continuamos a ser aquele alguém que não escolhemos conhecer
Os pensadores acima apresentam a importância do autoconhecimento e a mudança de sentimento “de si mesmo”, é mergulhar dentro de si e descobrir os padrões de comportamento que negam “ser”; desconstruir os próprios paradigmas; para poder escutar o outro, incluindo a compreensão do outro e ter um olhar sem preconceito nos desafios de convivência na lida do dia a dia; respeitando as diferenças de gênero, homem, mulher, crianças, idosos, gays, transexuais, travestis, lésbicas, negros, indígenas, brancos; pois cada ser humano tem a sua identidade e saber olhar o mundo, e fazer a pergunta “o que mais realizar”, ir além dê.

Conforme Franz Victor Rúdio a pessoa para preservar sua autoimagem e/ou para aquietar sua consciência moral, atribui aos outros e às circunstâncias os erros, frustrações, fracassos que ele deveria assumir honestamente como seus. Assim, por meio de um procedimento que podemos qualificar de autoengano, ele atribui aos outros, de modo total ou parcial, a culpa que, na verdade, é sua. Enquanto o “autoengano” perdura, o distúrbio psicológico não pode ser superado, porque o individuo não assume como seu. Sendo assim, autoengano é má fé consigo mesmo, a pessoa não assume a responsabilidade pela vida e não direciona esforços de mudança.

E continua, o homem é responsável pelo que faz. Como agir significa também praticar consequências, o homem é igualmente responsável, em termos gerais, pelas consequências que ele mesmo produz com as ações que executa; porque estruturalmente o homem é liberdade, ele faz escolhas, e é dotado de liberdade, porque é livre.

A liberdade não deve ser vista simplesmente como um conceito teórico e abstrato, pois é, na verdade, algo concreto e prático que, conforme seja bem ou mal utilizada, aperfeiçoa ou frustra o processo da própria existência e da própria realização humana. Liberdade é a capacidade que possui o homem de praticar uma determinada ação, tendo antes escolhido e decidido o que fazer entre as diversas possibilidades que a situação lhe proporciona.

O autor diz que é necessário, porém, que o homem admita e esteja sempre cônscio de que existem limites para a liberdade. As influências externas e internas podem restringir o seu exercício, mas não o invalidar. Ser livre é conhecer estes limites para definir a escolha e a decisão, entre as oportunidades que o momento oferece e permite. Ser livre é saber aproveitar oportunidades. É escolher e decidir, não entre as opções que se desejaria ter, mas entre aquelas que a realidade proporciona ou que, pela nossa criatividade, podemos tornar existentes e disponíveis.

Convém, portanto, acentuar isso: ser livre é também pode criar, dentro dos limites possíveis, oportunidades que nos são úteis e necessárias. Isto é, ser livre, é exercitar a nossa liberdade dentro da realidade. Quanto mais escolhas o homem fizer, mais livre se torna.

Uma decisão será tanto mais eficaz e produtiva para se realizar em ação, quanto mais forte e persistente for na mente do indivíduo. Por outro lado, não existe poder algum de fora capaz de obrigar uma pessoa a tomar uma decisão diferente, quando sua intenção é de manter o que deseja. A história nos conta, entre muitos outros exemplos, que nem a ameaça da morte tinha poder para modificar, nos primeiros cristãos, a decisão de servir a Deus: podiam morrer, mas não revogavam a decisão que tinham tomado. Manter as decisões tomadas, quando estas devem ser de fato mantidas, é uma das expressões mais elevadas de fidelidade da pessoa para consigo mesma.
A liberdade só é “verdadeira” quando as escolhas, decisões e os comportamentos que a constituem respeitam as leis da natureza, referentes tanto a quem usa a liberdade, como ao relacionamento deste com outras pessoas e com o meio ambiente. Quando isso não é observado, trata-se de uma “falsa” liberdade.

Conforme Franz Rúdio, neste conceito de liberdade – “agir (fazer) de acordo com as escolhas e as decisões (querer) que se toma” – podemos distinguir dois aspectos: a liberdade de querer e a de fazer. É o exercício destes dois aspectos que faz a pessoa ser “dona de si”. No entanto, a mais importante é a primeira (“querer”) e, neste caso, pode se dizer que alguém só é “dono de si” quando é sujeito de suas próprias escolhas e decisões. Entretanto, é utópico imaginar que sempre e em tudo que faz o homem pode ser “dono de si”, no sentido em que estou falando. Na verdade, em razão das contingências da vida social e pela necessidade de adaptação ao meio ambiente, a pessoa tem de aceitar que o seu “querer” seja, muitas vezes escolhido e decidido por outros ou pelas circunstâncias. Isso faz parte do jogo da existência, e geralmente não traz maiores consequências para o ser humano quando se refere a assuntos que, para ele, não são vistos como tão importantes. Mas existem questões que assumem, na sua maneira pessoal de ver, significação marcante (por exemplo à escolha do nubente, de uma vocação profissional etc…), e que se a solução não for fruto de seu próprio “querer” afetará negativamente a sua própria identidade de ser humano, arruinando de alguma forma a orientação da sua existência e o sentimento de seu valor pessoal.

Ele continua, podemos falar em “violação da liberdade” quando o homem é forçado a agir de forma diferente daquela que ele escolheu e decidiu (quando não se trata de uma “verdadeira” liberdade, não se pode falar em “violação”). Mas ele pode praticar, também, esta “violação” contra si, quando age em contradição com o que escolheu e decidiu ou quando aceita que outros escolham e decidam em seu lugar (pelo menos naquelas questões anteriormente referidas, que assumem significação marcante). Esta “violação de si” costuma aparecer por motivo de medo, vergonha, afeto, conveniência, atender a expectativa do outro, etc… É uma forma de renuncia da própria liberdade, permitindo interferências estranhas na sua vontade e que torna o individuo inautêntico por negar e trair a si mesmo. Então sua dignidade de ser humano é diminuída e sua autoestima é afetada negativamente. “Autêntico” é, portanto, o homem que elabora de modo consistente suas escolhas e decisões, que age coerentemente de acordo com as mesmas e que assume efetivamente a responsabilidade por aquilo que pratica.

A aceitação pelo individuo das escolhas e decisões que o outro toma em seu lugar é realizada frequentemente por meio de “condescendência” (por exemplo: não vou me revelar, para não mostrar a minha fragilidade, ou permitir o outro escolher e decidir por você). “Condescender” é uma forma débil, passiva de concordar: é unir por complacência. E acontece, geralmente, quando o individuo receia o enfrentamento e quer fugir da responsabilidade de tomar decisões. Isso é o mesmo que admitir que o outro seja “dono de si”, permitindo-lhe determinar o seu “querer”. Evidentemente, ninguém pode ser “dono” do “querer” do outro, se este não aceita a dominação. Embora sob grilhões e sendo obrigado a “agir” pelo domínio de seu algoz, o escravo pode continuar a se livre interiormente (no seu “querer” e não no seu “fazer”), vivenciando dentro de si suas crenças e valores. Não foi isso que aconteceu com diversas pessoas em muitos campos de concentração.

Foi dito que a pessoa se constrói a si mesma pelas escolhas que faz e pelas decisões que toma. Quando são os outros que escolhem e decidem no lugar do individuo, são estes que o constroem, moldando-o, como desejam, naquilo que escolhem ou decidem por ele. Quando isso acontece, ele se torna, de alguma forma, um estranho para si mesmo. Esta forma de negar-se é a origem costumeira das várias formas de disfunções psicológicas. Negando-se, ele tem sentimentos de culpa, de angústia (por exemplo: assumir a culpa do outro – a mãe fala para os filhos; sou infeliz porque aguentei a vida toda o seu pai. Aí, o filho (a) acaba assumindo essa culpa) . Sentindo-as, o individuo pode não ter consciência (ou pelo menos não ter uma consciência clara e nítida) de que provenham da traição que ele fez a si mesmo. Sendo assim, as escolhas que fazemos, leva-nos ao caminho para “ser”, ou para não “ser”; depende das escolhas. Nesse sentido, quando a pessoa deixa de escolher; ela escolheu não escolher. É quando perdemos nossas oportunidades, deixamos de transformar, não contribuímos com o ser; isto é, quando deixamos de ser coerente consigo mesmos, estamos contra o próprio ser e a nossa existência.

Heidegger, a relação que eu estou sou eu. A pessoa só redireciona a própria vida, quando aguenta fazer mudança.
Sendo assim, Leonardo Boff, fala que a transcendência é, talvez o desafio mais secreto e escondido do ser humano. Porque nós seres humanos, na verdade, somos essencialmente seres de protestação, de ação de protesto. Protestamos continuamente. Recusamo-nos aceitar a realidade na qual estamos mergulhados porque somos mais, e nos sentimos maiores do que o que nos cerca.

Desbordamos todos os esquemas, nada nos encaixa. Não há sistema militar mais duro, não há nazismo mais feroz, não há repressão eclesiástica mais dogmática que possam enquadrar o ser humano. Sempre sobra alguma coisa nele. E não há sistema social, por mais fechado que seja, que não tenha brechas por onde o ser humano possa entrar, fazendo explodir essa realidade. Por mais aprisionado que ele esteja, nos fundos da terra, ou dentro de uma nave espacial no espaço exterior, mesmo aí o ser humano transcende tudo. Porque, com seu pensamento ele habita as estrelas, rompe todos os espaços. Por isso, nós, seres humanos temos a existência condenada – condenada a abrir caminhos, sempre novos e sempre surpreendentes.

Ao falar de transcendência como dimensão intrínseca do ser humano, temos que submeter a rigorosa crítica o que as religiões nos legaram. Elas afirmam que o céu fica lá em cima, onde está Deus, os santos e aquele mundo que chamam de transcendente. Aqui embaixo a imanência, onde está a criação sobre a qual nós reinamos. Os dois mundos se justapõem e até se contrapõem. Através de toda mecânica da oração e da meditação buscamos criar pontes para chegar ao céu, à transcendência e a Deus.

Caso não consigamos por nós mesmo chegar a Deus, as religiões se propõem como mediadores. Os filósofos, no entanto, nos dizem: “Tudo isso é metafísica.” O que significa: tudo isso é uma representação e uma projeção nossa, não é a realidade originária. É invenção nossa. Então, transcendência, fundamentalmente, é a capacidade de romper todos os limites, superar e violar os interditos, projetar-se sempre num mais além.

O ser humano é um projeto ilimitado, transcendente, não para ser enquadrado numa religião, família, profissão, sociedade, política, cidade, estado, país. Ele pode, amorosamente, acolher o outro dentro de si. Pode servi-lo, ultrapassando limites. Mas é só na liberdade que ele o faz, é só quando decide a isso, sem nenhuma imposição.

REFERÊNCIAS:

BOFF, L. Tempo de Transcendência: O ser Humano como um Projeto Infinito: Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
BRANDEN, N. Autoestima e Autodescoberta. São Paulo: Saraiva, 1996.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo, 1990, v1 Coleção Filosofia.
RÚDIO, F., V. Liberdade.