O desrespeito ao corpo da mulher na cena de parir

O desrespeito ao corpo da mulher na cena de parir

Por Psicóloga Rafaela de Almeida Schiavo CRP: 06/93353

Podemos pensar em uma proximidade entre violência obstétrica e a cultura do
estupro, visto que, inúmeras mulheres que sofreram violência obstétrica, sentem-se
violadas, envergonhadas e culpadas, sentimento muito comum também entre as
mulheres que foram vítimas de abuso sexual. A violência obstétrica se aproxima muito
do sentimento de corpo violado, principalmente em sua vagina, tal violência pode levar
a mulher a se sentir usada, manipulada como um objeto, sendo desrespeitado seu corpo
em uma invasão que pode acarretar em elevado sofrimento psicológico, sendo inclusive
o eliciador de problemas de saúde mental no puerpério com prejuízos para a relação
mãe-bebê e até inclusive para a vida sexual.

Violência obstétrica são as diversas formas de violência – física,
verbal/psicológica, negligência, sexual e despersonalizante – que a mulher sofre da
gestação ao puerpério, durante os cuidados obstétricos realizados pelos mais diferentes
profissionais que atendem a gestante, parturiente ou puérpera (TESSER et al., 2015) os
procedimentos desnecessários e danosos como a epsiotomia, clister, tricotomia, uso de
ocitocina rotineira, impedir acompanhante, cesarianas desnecessárias, o não alojamento
conjunto, o não aleitamento materno na primeira hora quando há condições, são também
formas de violência obstétrica.

Historicamente o homem, na figura do médico, assume a posição de detentor do
conhecimento sobre o corpo da mulher, ele passa a ditar as regras de comportamento no
processo de parturição, baseado frequentemente naquilo que ele considera a favor de si
e não da mulher. A posição horizontal no parto, por exemplo, foi criada por François
Mauriceau no século XVII, pois facilitava o seu trabalho. O corpo da mulher, portanto,
entendido como objeto de manipulação do homem.

Essa dominação masculina sobre o corpo da mulher é de fato uma violência
simbólica. A violência simbólica é um tipo de agressão velada, implícita que torna à
própria vítima insensível a ela, o poder simbólico é invisível e é exercido com a
cumplicidade daqueles que estão sujeitos à ele. A pessoa sente-se mal com a ação do
outro, entretanto, aceita, por acreditar que aquilo é um ato normal ou certo, como na
relação médico-paciente, essa relação é hierarquizada, onde o médico está no topo e
detém o poder técnico e “científico” de decisão sobre o corpo do outro.

Como resultado de um tratamento desrespeitoso e frustrante em um momento
tão delicado, muitas mulheres chegam a ter reações semelhantes às de vítimas de

estupro, passando a rejeitar o próprio corpo, temer relações sexuais, além do pavor de
uma nova gestação ou ansiedade por outra na tentativa de substituir as péssimas
memórias. O fato de muitos profissionais realizarem o exame de toque na parturiente,
pode caracterizar também como um sentimento de estrupo coletivo, o que pode levar a
parturiente quando já no puerpério à ter um sentimento de que o parto normal foi
horrível, com desrespeito de seu corpo e de seu ser, o que pode desencadear nela os
mais diversos comportamentos, desde um sentimento de que algo não estava certo na
sua cena de parir até situações mais graves como um Transtorno de Estresse Pós-
traumático.

É preciso que mulheres tenham conhecimento à respeito do que é normal e do
que não é normal na cena de parto. É preciso empoderar mulheres para que se sintam
mais seguras quanto ao momento do parto e identificar, se, estão passando por violência
obstétrica e assim as denuncias finalmente começarem a ocorrer em nosso país.

 

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