Filhos adotivos e filhos biológicos

Filhos adotivos e filhos biológicos

Por Psicóloga Rafaela de Almeida Schiavo CRP: 06/93353

Adoção em nosso país inicialmente teve uma característica de caridade, onde os ricos
prestavam assistência aos mais pobres, os chamados “filhos de criação” se tornavam
muitas vezes mão de obra gratuita. Tal fato contribuiu para os mitos e preconceitos que
encontramos hoje na sociedade em relação à adoção (MAUX e DUTRA, 2010).
Até os anos 80 cerca de 90% das adoções no país eram realizadas por prática ilegal, ou
seja, registravam-se as crianças nascidas de outra pessoa, sem passar pelos tramites de
legalidade, geralmente essa prática era realizada por casais que não conseguiam gerar
filhos biológicos. Ainda hoje, mais da metade dos casais que querem adotar uma criança
são os que não conseguem gerar filhos biológicos e há também um número expressivo
de pessoas que desejam adotar, mas, dizem não saber como iniciar um processo de
adoção legal.
Para Maux e Dutra (2010) “embora a experiência da adoção seja singular para cada
família, existem aspectos que são frequentemente observados, como a relação adoção e
caridade; adoção e infertilidade; adoção e problemas de aprendizagem; além dos mitos e
medos em relação à revelação da adoção para o filho”.
Um dos mitos presentes no processo de adoção é o do laço consanguíneo, onde acredita-
se que a personalidade do sujeito é construída devido a sua genética, tal fato é um mito,
pois a personalidade não é dada geneticamente, mas sim uma construção sócio histórica
do sujeito, na sua relação e experiências com o meio.
Ser pai e mãe seja de filhos biológicos ou de filhos adotivos sempre será uma atividade
de aprendizagem, ninguém nasce pai e mãe, todos aprendem a ser pai e mãe, além de
que todos têm um filho imaginário/idealizado que geralmente não corresponde ao filho
real, isto quer dizer que cada um cria fantasia a respeito de como será sua vida parental
e como serão seus filhos, atribuem características físicas, psíquicas e comportamentais à
essa criança imaginada, e quando se tornam pais nem sempre o filho imaginado
corresponde, portanto, ao filho real, seja ele biológico ou não.
Pais e mães de filhos biológicos ou não sentem ambivalência (amor e ódio), pela
atividade parental, pois ser pai e mãe implica em mudanças de comportamento, assumir
responsabilidades, gastos financeiro, alterações emocionais entre outros, que fazem a
parentalidade ser sentida como algo bom e ruim ao mesmo tempo, pois, educar um filho
biológico ou não biológico, é sempre uma tarefa difícil. E deve em ambos os casos
sempre ser pensada se de fato quer ou não assumir as responsabilidades de educar e
formar um cidadão.
Não há diferença, portanto, entre ser pai/mãe de filhos biológicos ou adotados, são
filhos e pronto. Não há uma idade certa para dizer ao filho que é adotado, assim como
não há uma idade certa para falar ao filho como ele foi gerado, o momento certo é
sempre quando lhe é perguntado, independente da idade da criança, o que não é
adequado é esconder do sujeito a sua própria história.

Quando alguém procura um psicólogo para saber se deve ou não adotar uma criança é
preciso que o psicólogo entenda se a pessoa “Quer ser mãe/pai” ou se ela “Quer ter um
filho”. Se a resposta provável é “meu cliente quer ter um filho”, é provável que seja
melhor trabalhar mais um pouco a respeito da situação, pois, ter um filho, muitos têm,
mas ser pai e mãe é uma tarefa desafiadora que implica aceitação do filho real, renuncia
e luto do filho idealizado e aceitar que não se cria um filho para si, mas para a sociedade
e que para isso é importante assumir comportamentos como cuidar, proteger e educar.
Referências
MAUX, A.A.B; DUTRA, E. A adoção no Brasil: algumas reflexões. Estudos e
Pesquisa em Psicologia, v.10, n.2, p.356-372, 2010.

 

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